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Publicado em Notícias
Postado por  Província São Francisco de Assis 12 Maio 2020
A experiência docente em tempos de coronavírus

Da educação presencial à educação remota

O coronavírus vem impactando todas as dimensões das nossas vidas. As questões econômicas e sociais, embora insuficientes e tratadas com lentidão, foram colocadas na ordem das políticas emergenciais.

Já a educação, ficou no descaso! O MEC emitiu portarias, como a de n. 343 e 345 em março e a de n.395 em abril, dispondo sobre a substituição de aulas presenciais por atividades remotas de aprendizagens, por meio do uso de tecnologias digitais. Isso, sem um debate público e sem considerar as desigualdades de recursos técnicos e de acesso à internet e à informação por parte dos estudantes e, inclusive de professores/as, além da realidade de preparação desses profissionais para enfrentar uma realidade imposta.

Como garantir o direito à educação de qualidade, em tempo de pandemia, com situações sociais tão desiguais? Segundo o professor Sérgio Hadadd[1], 40% da  população  não tem acesso à internet, nem espaço adequado para estudos em casa, além de pais sem condições de acompanhar os processos de aprendizagem de seus filhos, seja por ter que trabalhar ou por não possuir formação suficiente. Nesse período, as desigualdades na garantia ao direito de uma educação de qualidade ficam mais evidentes, tanto na rede privada, quanto na rede pública de ensino. Claro, de maneira mais intensa nessa última.

A pandemia nos impôs um isolamento social, sem nenhum preparo prévio, fazendo com que profissionais da educação e estudantes tivessem que lidar com questões materiais e emocionais, tendo que ao mesmo tempo se reinventar como docente, discente e também nas outras tantas posições de sujeito, que cada pessoa ocupa no seio das famílias e no mercado de trabalho.

Relato, aqui, a experiência de ser docente, diante desse processo de mudanças. Trabalho em uma universidade comunitária no Estado de Santa Catarina. Assim que as aulas presenciais foram suspensas, no dia 17 de março, a universidade assumiu a Portaria nº 343 do MEC, propondo a substituição das aulas presenciais por aulas remotas, durante todo o período da pandemia do Novo Coronavírus (Covid-19). Professores e estudantes tiveram que se adaptar, da noite para o dia, à modalidade de ensino remoto, por meio do uso de tecnologias. Ninguém estava preparado para tal situação. Houve resistências tanto de discentes, como de docentes. Os professores/as precisaram se tornar, rapidamente, especialistas no uso das tecnologias para atividades online.

A universidade tem algumas condições a seu favor. Conta com um Ambiente Virtual de Aprendizagem, utilizado para a modalidade de ensino em EAD e MIX (cursos com aulas presenciais e on-line), de modo que recorreu às ferramentas dessa plataforma.  No entanto, os professores/as dos cursos presenciais não tinham preparo técnico para o uso de todas as ferramentas disponíveis.  O aprendizado foi acontecendo na medida em que as atividades de ensino eram preparadas. A todo o tempo, a equipe do Núcleo de Apoio Pedagógico deu suporte técnico aos/às docentes, com encontros virtuais e envio de tutoriais sobre as ferramentas da Plataforma de ensino. Esses profissionais foram submetidos a jornadas exaustivas de trabalho e, sem hora predeterminada, estiveram disponíveis a todo o momento para dar atendimento personalizado aos professores/as.

Os/as docentes foram orientados a planejar atividades síncronas (webconferências) com a presença simultânea de professores/as e estudantes, realizadas no mesmo dia e hora da oferta da disciplina, e atividades assíncrona, sem que os estudantes deveriam realizar atividades, sem data e horário estipulado, e entregar no prazo determinado, via plataforma de ensino.

A universidade buscou manter uma aparente normalidade diante de uma crise sanitária que desestabilizou famílias, situação econômica e questões de ordem emocional.  Como professora, no mestrado em educação e do componente de sociologia Jurídica, no curso de Direito, realizei a experiência dessa passagem da educação presencial à educação remota, vendo a jornada de trabalho se ampliar e tendo que interagir com dificuldades técnicas e emocionais de estudantes.

Grande parte dos estudantes da universidade são de pequenas cidades da região ou de comunidades rurais e muitos dividem o tempo de estudos com o trabalho profissional. Algumas vezes foi necessário readequar as atividades ou gravar as aulas, pois havia estudantes que não tinham como acompanhar as webconferências, seja por ter sinal fraco de conexão ou por não possuir equipamentos adequados.

Devido a essa realidade que exige a reconfiguração do cotidiano da vida com o cuidado de filhos e pais idosos, além da pressão emocional, houve desistência de estudantes, sobretudo do sexo feminino. Isso, de certa maneira, evidencia que os impactos da pandemia sobre a vida dos estudantes são diferentes quando se leva em consideração as questões sociais e de gênero.  

Na modalidade de ensino remoto, vi o trabalho se triplicar.  Além de dispor tempo e paciência para o aprendizado de ferramentas tecnológicas, foi necessário repensar metodologias e práticas pedagógicas, detalhar o desenvolvimento das atividades de ensino nas plataformas digitais e responder a muitas mensagens de estudantes no WhatsApp, fora do chamado “horário de trabalho”.

O reinventar-se como docente online e o aprendizado no uso das tecnologias são um ganho desse tempo de pandemia, que pode fortalecer o processo de ensino e aprendizagem presencial. Contudo, isso não pode servir como uma espécie de laboratório de um projeto de educação que visa expandir a modalidade de EaD e ampliar os processos de privatização do ensino, segundo os interesses do capital internacional.

A experiência realizada em um cenário de pandemia coloca em evidência que a política do atual governo, atrelado aos interesses de grupos capitalistas, de ampliar a modalidade de ensino à distância, irá aprofundar ainda mais as desigualdades de condições e de acesso ao direito da educação de qualidade e submeterá a profissão docente a processos mais precarizados, ampliando a jornada de trabalho, sem que isso signifique ganhos salariais.

Uma pergunta que se coloca: o que será da educação pós-pandemia?  As novas experiências e o debate político sobre os impactos do coronavírus à educação nos ajudarão a ampliar o direito humano da educação pública e de qualidade ou seremos submetidos/as a processos que ampliam as desigualdades sociais e a precarização da docência?

Oxalá, possamos nos unir, resistir e contribuir na formulação de políticas educacionais que garantam o direito de acesso à educação pública e de qualidade para todos/as, pautada em princípios equitativos e que promovam a valorização profissional da docência. Sonhar é manter viva a esperança de dias melhores e de uma sociedade mais humanizada, justa e plural, em que a educação se torne a principal ferramenta para materializar essa utopia.



[1] HADADDm Sérgio, Coronavirus e a educação: uma relação de grandes desafios.  Série Lives:  o que vem depois da crise?  Site da Anistia Internacional.  Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=mYcdnAN0Twg&list=PLRi-oq9 4McHOSvdW63f8PE0h69Qz92io&index=4&t=0s. Acesso em 21 de abril de 2020.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Irmã Neiva Furlin

Comentários  

#1 IRIA MINOSSO 13-05-2020 17:55
Sim, Ir. Neiva, muito importante essa reflexão sobre a realidade educacional, no momento que estamos vivenciando(pan demia), o uso das tecnologias tão desconhecidas para a maioria de nós e as expectativas do que virá depois. Obrigada pela sua partilha e aguardamos muitas outras para entender a realidade, a educação de qualidade e o nosso papel como irmãs catequistas franciscanas.

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