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28 Junho 2016
A história pertence ao Ancião

Não pude deixar de compartilhar... Me emocionei pela verdade no texto e quis traduzi-la a todos e todas nós, da Prelazia de são Félix do Araguaia, a toda a Igreja dos seguidores e seguidoras do Evangelho, sonhada pelo bispo Pedro, hoje fragilizado em seus 88 anos pelo seu “irmão” Parkinson como ele mesmo o chama.

Nesse tempo de Romaria, trago ao coração, à partir do texto abaixo, a triste sensação que tive em 2006, por ocasião de uma peça de teatro de sombras, onde Pedro em processo de fragilização, porém, firme, com a mão ao ombro de alguém como apoio, caminhava devagar, então, parou, nos cumprimentou um a um (o grupo que iria se apresentar) e foi para o barracão assistir a peça. Chorei muito. Teria o corpo fragilizado de Pedro, como em um espelho, refletido uma imagem, de uma sonhada Igreja, de um corpo místico, profético e pobre que se fragiliza cada vez mais? Perdão Pedro, perdão Jesus, por me acovardar, ter medo, não assumir a opção pelos pobres e marginalizados como deveria.

" Há uma quebra na história familiar onde as idades se acumulam e se sobrepõem e a ordem natural não tem sentido: é quando o filho se torna pai de seu pai.

É quando o pai envelhece e começa a trotear como se estivesse dentro de uma névoa. Lento, devagar, impreciso.

É quando aquele pai que segurava com força nossa mão já não tem como se levantar sozinho. É quando aquele pai, outrora firme e instransponível, enfraquece de vez e demora o dobro da respiração para sair de seu lugar.

É quando aquele pai, que antigamente mandava e ordenava, hoje só suspira, só geme, só procura onde é a porta e onde é a janela - tudo é corredor, tudo é longe.

É quando aquele pai, antes disposto e trabalhador, fracassa ao tirar sua própria roupa e não lembrará de seus remédios.

E nós, como filhos, não faremos outra coisa senão trocar de papel e aceitar que somos responsáveis por aquela vida. Aquela vida que nos gerou depende de nossa vida para morrer em paz.

Todo filho é pai da morte de seu pai.

Ou, quem sabe, a velhice do pai e da mãe seja curiosamente nossa última gravidez. Nosso último ensinamento. Fase para devolver os cuidados que nos foram confiados ao longo de décadas, de retribuir o amor com a amizade da escolta.

E assim como mudamos a casa para atender nossos bebês, tapando tomadas e colocando cercadinhos, vamos alterar a rotina dos móveis para criar os nossos pais.

Uma das primeiras transformações acontece no banheiro.

Seremos pais de nossos pais na hora de pôr uma barra no box do chuveiro.

A barra é emblemática. A barra é simbólica. A barra é inaugurar um cotovelo das águas.

Porque o chuveiro, simples e refrescante, agora é um temporal para os pés idosos de nossos protetores. Não podemos abandoná-los em nenhum momento, inventaremos nossos braços nas paredes.

A casa de quem cuida dos pais tem braços dos filhos pelas paredes. Nossos braços estarão espalhados, sob a forma de corrimões.

Pois envelhecer é andar de mãos dadas com os objetos, envelhecer é subir escada mesmo sem degraus.

Seremos estranhos em nossa residência. Observaremos cada detalhe com pavor e desconhecimento, com dúvida e preocupação. Seremos arquitetos, decoradores, engenheiros frustrados. Como não previmos que os pais adoecem e precisariam da gente?

Nos arrependeremos dos sofás, das estátuas e do acesso caracol, nos arrependeremos de cada obstáculo e tapete.

E feliz do filho que é pai de seu pai antes da morte, e triste do filho que aparece somente no enterro e não se despede um pouco por dia.

Meu amigo José Klein acompanhou o pai até seus derradeiros minutos.

No hospital, a enfermeira fazia a manobra da cama para a maca, buscando repor os lençóis, quando Zé gritou de sua cadeira:

— Deixa que eu ajudo.

Reuniu suas forças e pegou pela primeira vez seu pai no colo.

Colocou o rosto de seu pai contra seu peito.

Ajeitou em seus ombros o pai consumido pelo câncer: pequeno, enrugado, frágil, tremendo.

Ficou segurando um bom tempo, um tempo equivalente à sua infância, um tempo equivalente à sua adolescência, um bom tempo, um tempo interminável.

Embalou o pai de um lado para o outro.

Aninhou o pai.

Acalmou o pai.

E apenas dizia, sussurrado:

— Estou aqui, estou aqui, pai!

O que um pai quer apenas ouvir no fim de sua vida é que seu filho está ali. "

                                                                                           (autor desconhecido)

 

Talvez como esse pai do texto, o bispo Pedro, pai espiritual, queira somente ver mais uma vez, seus “filhos e filhas” das tantas causas e lutas, somente mais uma vez, reunidos e reunidas, dizendo: eu estou aqui! Nós estamos aqui! Aqui estão os profetas e as profetizas!

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Luís Claudio da Silva com autor desconhecido
  • Enviado por: Irmã Emilia Altini