“Olhe dentro deste espelho
todos os dias” (4In 15a)
Quem de nós sai de casa sem dar uma passadinha na frente do espelho? Ou nas viagens, quando pára, quando chega...? Aliás não sei se há lugares de toalete sem um grande espelho... Já vi gente que, na falta de um, busca alguém de óculos e pede para que lhe sirva de espelho. Para o nosso tempo, se tornou algo imprescindível, pois há até quem diga: “imagem é tudo”. Com certeza não o é para nós. Sempre queremos muito mais que imagem: queremos consistência, buscamos profundidade, queremos essência.
Quando Clara diz em seu testamento que o Senhor nos colocou como espelho, também já colocou a imagem que somos chamadas/chamados a refletir: não a nossa própria figura bem alinhada, mas a imagem mesma do Cristo, pobre e crucificado. Para isso, na carta à sua amiga Inês ela repete a convocação do evangelho “permaneçam em mim” (Jo 15,4), com outra figura: “olhe dentro deste espelho todos os dias” (4In 15a). Tanto Jesus como Clara advogam por frutos: seguimento de Jesus, nos caminhos que Ele andou, com a mesma missão que Ele abraçou: “Percorria todas as cidades e aldeias, e ali ensinava em suas sinagogas, proclamando a Boa Nova do Reino e curando toda doença e toda enfermidade” (Mt 9,35).
Clara foi este espelho para suas Irmãs, as que conviviam com ela, para as de longe e tantas que vieram depois dela, como declara uma das testemunhas no Processo de Canonização:
“Declarou também que madona Clara, enquanto abadessa do mosteiro, governou com tanta santidade e prudência e que por seu intermédio fez Deus tantos milagres que as irmãs e todos os que a conheceram, a consideram santa. Interrogada sobre como se notava essa santidade, respondeu que era na virgindade, humildade, na paciência e afabilidade, na oportuna correção, na firmeza e doçura das exortações que fazia às irmãs, na assiduidade à oração e contemplação, na abstinência e jejum, na rudeza do leito e no vestir, no desprezo de si mesma, no fervoroso amor a Deus, e, bem assim no desejo do martírio e sobretudo no amor pelo Privilégio da Pobreza” (PC 12, 6).
E que dizer de Francisco? A própria Clara se espelhou nele, se deixou guiar por seus ensinamentos, por sua orientação e, como diz a canção “nem o tempo seu nome apagou”. Sua luz atravessou os séculos, as culturas e, hoje, ainda nos impulsiona seu exemplo a lutar pelas causas nas quais é luzeiro: a defesa da criação e a paz, tão pisoteada em nossos dias. Ele tem consciência de sua responsabilidade de exemplo e espelho. Uma amostra é o que se testemunha no Espelho da Perfeição:
“Certa ocasião, quando visitou o senhor bispo de Óstia, que depois foi Papa, na hora da refeição, quase furtivamente por causa do senhor bispo, saiu a pedir esmolas e, quando regressou, o senhor bispo estava sentado à mesa e comia, principalmente porque, na ocasião, havia convidado para a refeição alguns cavaleiros e parentes seus.
O bem-aventurado Francisco pôs as esmolas sobre a mesa do senhor bispo e colocou-se à mesa ao lado do senhor bispo, porque o senhor bispo sempre queria que, quando estivesse com ele à hora da refeição, o bem-aventurado Francisco sentasse a seu lado; e o senhor bispo envergonhou-se um pouco, porque o bem-aventurado Francisco foi pedir esmolas, mas nada disse, sobretudo por causa dos convivas.
...
Após a refeição, porém, o senhor bispo levantou-se e entrou no seu quarto, levando consigo o bem-aventurado Francisco. Abraçou-o com grande alegria e exultação e lhe disse: “Meu irmão simplório, por que me causaste a vergonha de, na minha casa, que é tua casa e dos teus frades, ires pedir esmolas?”
... E disse Francisco: “Devo ser o modelo e o exemplo dos vossos pobres, sobretudo porque sei que na vida e na religião dos frades há e haverá frades menores de nome e de obras que, por amor o Senhor Deus e por unção do Espírito Santo, que lhes ensina e ensinará todas as coisas, se humilham e humilharão com toda a humildade, sujeição e serviço de seus irmãos.
E o senhor bispo ficou muito edificado com as palavras do santo Pai e disse-lhe: “Filho, faze o que é bom aos teus olhos, porque Deus está contigo e tu estás com ele” (EP 2, 1-4. 9-10.22). (É interessante ler o capítulo inteiro).
Clara, nossa mãe, Francisco santo Pai, dai-nos força ainda maior para cumprir este sagrado encargo que Deus nos confiou: intercedei por nós, para que sejamos fiéis nesta missão. Que todas as pessoas possam ver refletida no espelho de nossa vida a imagem de Jesus, que percorreu os caminhos dos pobres, ouviu seus gemidos, curou suas enfermidades, abriu caminhos de libertação, ensinou para que ninguém seja “reduzido ao silêncio por falta de conhecimento (cf. Os 4,6).
