Ressuscitar com o Cristo de todas as mortes que nos paralisam!
Feliz Páscoa!
De muitas maneiras, com diferentes rostos, de origens inesperadas, falando uma diversidade de línguas... o encontramos em esquinas, em bairros pobres, entre grupos juvenis ou de pessoas idosas. Ainda que muitas vezes entre nós esteja e não o reconheçamos, nem mesmo o vejamos porque “não tem beleza para atrair o olhar, nem tem aparência que agrade... indivíduo de quem a gente desvia o olhar” (cf. Is 53, 2s). Não tem uma conversa agradável, nem vai nos colocar a par das últimas novidades. Outras vezes lhe faltam simpatia e boas maneiras, nos parece exigente nos seus pedidos.
Quantos rostos destes encontramos cada dia? Quantos nos fazem mudar de calçada se vislumbramos um possível encontro? E quantas vezes lembramos que eles são crucificados destinados à ressurreição, como o somos cada uma e cada um de nós? Mas quantas alegrias compartilhamos com mulheres e homens a quem um dia tivemos a graça de estender a mão.
Francisco não foi imune à fase de rejeição, da rápida e distante atenção só pra se ver livre da presença que o incomoda. Mas, tocado pela graça, abriu-se ao olhar evangélico pelo qual se reconhece no sofredor a figura do próprio Senhor! Recorremos de novo a Tomás de Celano para nos ajudar a perceber este processo:
“Confortado pelo Senhor, teve a alegria de uma resposta de salvação e de graça: “Francisco, disse-lhe: Deus em espírito, se queres o meu conhecimento, tens que trocar as coisas vãs e carnais pelas espirituais, tens que preferir as coisas amargas às doces, tens que desprezar a ti mesmo. Haverá uma transformação e tudo isso vai te parecer delicioso.
Sentiu-se imediatamente obrigado a obedecer ao que Deus mandava e enfrentou a experiência. Ele, que tinha natural aversão pelos leprosos, julgando-os a monstruosidade mais infeliz do mundo, encontrou-se um dia com um, quando andava a cavalo por perto de Assis. Ficou muito aborrecido e enjoado, mas, para não quebrar o propósito que fizera, apeou e foi beijá-lo.
O leproso estendeu-lhe a mão para receber alguma coisa e recebeu de volta o dinheiro com um beijo. E montando logo no cavalo, olhou para todos os lados, mas, apesar de estar em campo aberto, não viu mais o leproso. Cheio de admiração e de alegria por causa disso, poucos dias depois tratou de fazer algo semelhante.
Dirigiu-se para onde moravam os leprosos, deu dinheiro a cada um deles e beijou-lhes a mão e a boca. Assim substituiu o amargo pelo doce e se dispôs corajosamente para o que ainda estava por vir” (2Cel 9,6-14).
Clara cultivou desde a casa paterna a reverência e cuidado com os pobres por causa do Cristo pobre e crucificado de quem era a imagem viva. Através deles, ia percorrendo o caminho de aproximação e identificação com o próprio Cristo, seu caminho e seu espelho.
Este processo teve um ponto alto na noite daquele domingo de Ramos em que a porta dos mortos lhe abre a imensidão de uma vida nova, livre dos laços da riqueza e nobre linhagem que determinam desejos e decisões, caminhos e passos. Ela corre ao encontro do único imenso abraço ao qual se entrega. Como uma virgem pobre, abraça o Cristo pobre.
E, fechada no claustro, continua atenta aos gemidos e clamores dos necessitados e os socorre com os dons com que Deus a adornara. Depois da morte, seu coração misericordioso mergulhado na fonte da misericórdia, segue derramando amorosa força curadora.
“Um tal Pedrito, da aldeia de Betona, viu-se consumido por uma enfermidade durante três anos. Sentia-se totalmente enfraquecido pelo desgaste que a prolongada doença lhe causava.
A doença era de tal gravidade que lhe atrofiava a parte inferior do corpo. Por isso andava sempre curvado. Mesmo agarrado a uma bengala, movimentava-se com grande dificuldade. O pai do rapaz não se cansava de recorrer a médicos experimentados, sobretudo a especialistas no tratamento de ossos fraturados. Estava disposto a gastar todos os seus bens na recuperação da saúde do filho.
Mas como de todos os lados só ouvia respostas desanimadoras, recorreu à intercessão da santa, de cujos milagres ouvira falar. Assim, levou o menino ao lugar onde repousam os restos preciosos da virgem. Mal tinha chegado ao sepulcro da santa e já recebia a graça duma cura completa. Imediatamente se levantou direito e saudável e começou a andar e a saltar, louvando a Deus e convidando o povo a louvar Santa Clara” (LSC 55).
Vivemos a Semana Santa, tempo em que nos debruçamos com mais fervor sobre o imenso amor que se entregou na cruz, como caminho para celebrar com Ele a vitória da vida. Ele que se despojou de sua condição divina e assumiu a humana pobreza. Por sua obediência, Deus O exaltou, livrou-O das garras da morte e O exaltou acima de tudo (cf Fil 2,6ss).
Que tendo vivido com profundidade a Quaresma, possamos também nós, como as mulheres da aurora, como Madalena, como os discípulos, ver o Senhor Ressuscitado em cada irmã e irmão, em cada pessoa que nos estende a mão e espera de nós alívio para sua dor, conforto e força e em fragilidades.
Que possamos ressuscitar com Cristo de todas as mortes que nos paralisam! Feliz Páscoa!

