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15 Abril 2026
NA DANÇA DO CARISMA - Esperançar com os Povos Indígenas: Profecia que Resiste e Floresce

 

“Ela foi uma luz a nos iluminar quando estávamos quase desaparecendo”

 

A celebração da Páscoa, da semana dos povos indígenas com suas manifestações no ATL e a realidade cruel das guerras de armas e não só, nos mesclam com sentimento de impotência, incredulidade e ao mesmo tempo de fé e esperança. É neste bailar que, com reverência e um certo temor de dar passos descompassados, vamos nesta dança, solfejar algumas constatações/considerações sobre nossa missão junto aos povos indígenas no contexto de nossa história congregacional.

Como um grupo nascido num contexto de colonização e governos expansionistas, a Companhia das Catequistas não ficou imune da “contaminação”, deste contexto colonialista. Para os imigrantes europeus e seus descendentes, (enganados por campanhas ilusórias), o melhoramento das condições, como construção de escolas, estradas, acompanhamento religioso, era considerado progresso. No entanto, para os povos originários, isso representava diminuição de seus territórios, violência, e acima de tudo, de expropriação de culturas milenares de respeito à terra e aos filhos da terra (Isaac, 2018, p. 36).

Entretanto, todos os processos de opressão e dominação trazem em seu bojo contradições profundas que acabam gerando sementes de libertação. Foi assim na história do povo Hebreu (Ex 12,1ss) e na história de tantos outros povos. Igualmente aconteceu e está acontecer na história deste imenso continente no qual o carisma das irmãs catequistas nasceu.

Se no início (só no início?!), não ficamos isentas de concepções colonialistas, cedo fomos nos abrindo para um serviço respeitoso e de aprendizado junto a estes povos. Temos a nível de congregação vivências edificantes, não sem sofrimentos, de grande solidariedade e defesa de direitos, no Brasil; Guatemala, Paraguai..., junto aos povos originários, das aldeias às periferias urbanas. Não conseguirei nomear todas as irmãs que estiveram e estão a serviço desta causa. As que não cito, não será por serem menos importantes mas, apenas por uma questão extensão textual. Outras partilhas do próprio punho virão na próxima dança.

Um trabalho mais em conjunto, com outras entidades a favor desta causa remonta aos anos 70. Mas o sonho, as buscas e passos de maior proximidade vem bem antes disso. A ida da congregação para Mato Grosso em 1947 já carregava esse germe. É emocionante beber do livro sobre irmã Maria Ossemer, que relata a sua vivência (e de outras irmãs) nesta causa.[i]

A vida-missão de irmã Maria Ossemer, que chega em Mato Grosso em 1949, foi sendo pautada na paixão pelos pobres e predileção especial pelos mais pobres entre os pobres. O que chega forte ao coração é que a sua atenção primeira, já naquele tempo, não foi o “catequisar”, mas se aproximar para melhor compreender a cultura do povo indígena. E ao ir morar na aldeia, sua preocupação imediata foi a possível extinção do povo Bóe- Bororo.

Diz um indígena citado no livro: “Ela foi uma luz que veio nos iluminar quando estávamos quase desaparecendo” (Ibidem, p. 76, grifo meu) Não é por acaso que seu nome na língua deste povo é estrela da manhã. Segundo o autor “O que os índios mais enfatizavam em suas falas: sua bondade e seu amor pelo povo indígena” (Ibidem, p. 79). Ela é um testemunho vivo de que quando se ama de verdade, as diferenças culturais, não são empecílios mas, soma, enriquecimento e aprendizado para ambas as partes.

Da mesma forma como de Mato Grosso, nosso serviço com os povos originários foi se ampliando para outros estados do norte, nordeste, no Sul e sudeste as irmãs também foram assumindo uma aproximação cada vez maior e mais comprometida com a causa indígena.

Recordamos com saudosa memória de Irmã Beatriz Catarina Maestri (+ 04/08/2014) que dedicou grande parte de sua vida-missão junto aos povos indígenas. Entre os anos 86 a 92 com irmã Isabel Venturi que já se encontrava lá (ainda hoje continua neste serviço) bem como, outras irmãs, marcou presença na Terra indígena Ibirama Laklãnõ na região de José Boiteux/SC. Deste período, escreve ela: ...fomos dialogando, olhando, ouvindo, percebendo o jeito próprio de viver daquela população e identificando seus problemas”.[ii] Em anos posteriores, junto à indígenas nas periferias urbanas de São Paulo, ela continuou a amar, estar e lutar com estes povos pelos seus direitos. Irmã Beatriz amava profundamente a causa dos povos indígenas como ela mesma deixou escrito: “Agradeço a Deus as experiências lindas que tive a graça de fazer (...) com os mais pobres, preferidos de Deus, sobretudo os indígenas, o povo da periferia.”[iii]

A partir do capítulo Geral de 2012, a missão junto aos povos originários tornou-se uma opção congregacional. O projeto Guarani Kaiowá assumido como um dos marcos do centenário da congregação, foi reafirmado nos capítulos seguintes como uma missão constituída junto a este povo que continua enfrentando muita violência e descaso das autoridades. A irmandade de Dourados – MT continua com coragem e perseverança essa missão assumida por todas nós.[iv]

É bom ressaltar que, fieis ao nosso carisma, nossa missão junto a essas realidades variadas dos povos originários é Ser presença solidária e profética atuando com eles, na educação, saúde, na auto sustentabilidade; nas lutas por políticas públicas, na defesa da vida, da terra e dos direitos, somando no CIMI nacional e regionais, na Pastoral Indigenista e com outras entidades que acreditam na força da igualdade de direitos entre as pessoas e os povos.[v]

Hoje juntas: irmãs e formandas; indígenas e/ou descendentes de vários povos indígenas, negras africanas e/ou afrodescendentes, brancas descendentes de europeus e tantas como eu, mistura de duas ou mais culturas; todas Catequistas Franciscanas juntamente com simpatizantes do carisma, queremos estar nesta comunhão aprendendo a vivenciar no cotidiano da interculturalidade, num pentecostes multicolor do seguimento de Jesus do jeito de Clara e Francisco.

Queremos continuar nossa presença profética junto aos povos originários. Queremos beber da grande sabedoria ancestral que pode fortalecer em nós, uma relação de profunda reverência e cuidado com a irmã e mãe terra que mesmo sofrendo atrocidades, nos trata com tanta generosidade.

 


[i] - O nome do livro citado: Irmã Maria Ossemer, uma Missionaria franciscana entre os índios Bóe-Bororos de Mato Grosso - Paulo Augusto Mário Isaac,2018. Irmã Maria Ossemer, hoje tem 99 anos e vive na irmandade de Rondonópolis.

[ii] -Tirado da tese de seu mestrado em Antropologia Social.

[iii] - De seu testamento, escrito em 12 de julho de 2003 – Blumenau -SC.

[iv] - Foram várias irmãs que somaram neste projeto com tempo variado de permanência. Hoje toda a irmandade de Dourados assumem essa missão junto aos Kaiwvás.

[v] - Slaid: “Memórias do Caminho com os povos indígenas” – Irmã Ana Macedo, 2023.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Irmã Carmelita Zanella

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