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24 Junho 2026
NA DANÇA DO CARISMA - O Sopro do Espírito acolhido por irmã Clemência

 

Amparar, Defender, cuidar e Deixar Crescer! 

Aquecidas pelas festas juninas que trazem a riqueza da diversidade e da convivência popular e sintonizada/os com o Coração de Jesus que se irmana a tantos corações machucados, mas que não desistem de buscar e viver o bem, bailemos hoje, com irmã Clemência Beninca na história da congregação. Trazemos presente iluminações e/ou interpelações que esta presença generosa em nossa história pode suscitar para nossa vida-missão hoje.

O que, levou, uma mulher de uma congregação tão conceituada como a Divina Providência daquela época, a dedicar-se a um grupo incerto, sem perspectivas credíveis de prosperar? Ou o que levou esta mulher dedicar-se com tanto “Zelo e solicitude” por esta causa, mesmo enfrentando incompreensões dentro de sua própria família religiosa? Ou ainda, o que levou esta mulher, educadora bondosa, a defender a Companhia com “tanta firmeza” diante de um provincial, numa época em que, autoridade quer civil ou eclesiástica tinha a última palavra?

Foi a abertura de coração ao sopro do Espírito que “sopra quando, onde e como quer (cf. Jo 3,8) que a levou arriscar tanto! Só quem é capaz de abrir-se a novidade do Espírito que não tem fórmulas prontas, nem caminhos traçados mas, vai se manifestando até no improvável das circunstâncias, é capaz de intuir o que João Batista já intuíra a respeito de Jesus: “É necessário que ele cresça e eu diminua” (cf. Jo 3, 30). Parece-me ouvi-la parafraseando este texto de João: “Importa é eu amparar, cuidar, orientar até que elas, imbuídas de sonhos e inspirações divinas, seguirão firmes com os seus próprios pés”.

A sua presença em nossa história congregacional é iluminadora e provocadora em nosso contexto congregacional, eclesial e social atuais. Sinalizamos três aspectos que me parecem relevantes. Um primeiro: a compreensão que se tem de Carisma nas últimas décadas, está nos possibilitando abertura para outras formas de vivência do nosso carisma (simpatizantes, irmãos, leigo/as consagrada/os...). É preciso muita abertura de coração para deixar esses novos sopros fazerem seu caminho, sem sermos indiferentes nem aprisionar, mas nos aproximando, acolhendo, buscando saídas junto/as, apoiando e deixar florescer com cores e perfumes próprios.

Outro aspecto que nos faz refletir é com o nosso ser igreja. Nosso carisma, tem como destaque da espiritualidade franscisclariana, a encarnação. Encarnação que nos leva comprometer na luta por justiça pão e beleza, numa eclesiologia encarnada. Nossa proposta congregacional atual (linhas inspiradoras, plano estratégico...) leva a isso. No entanto, é uma proposta que difere em muitos aspectos da visão de igreja de muitas paróquias, dioceses, padres e bispos, movimentos e apostolados emergentes, se não tanto na teoria mas muito forte na prátia.

A pergunta é: fiéis ao nosso carisma, conseguimos como irmã Clemência, dialogar com respeito mas com determinação dando razões de nossa esperança (cf. 1 Pd 3, 15) sem retroceder ou abandonar de vez? Santa Clara é radical neste sentido: “Não confie em ninguém nem consinta com nada que queira afastá-la deste propósito... se alguém sugerir algo diferente que impeça, se parecer contrário ao chamado, mesmo que mereça sua veneração não siga o seu conselho. Abrace o Cristo pobre crucificado” (cf. Seg Carta. Santa Inês de Praga, n 17).

As vezes dá a impressão de que, justificamos falando contra, mas não nos posicionamos deixando esta corrente avançar de modo impressionante. É importante, mas não basta o Papa, a CNBB, alguns bispos terem posições claras diante do absurdos, de opções contra o evangelho, de grupos externos ou internos da igreja; nem que seja repetido teoricamente, em todas as instancias sinodalidade. É preciso que todos onde quer que estejamos ou atuemos, tomemos posição, com palavras e atitudes pois “importa antes obedecer ao sopro do Espírito, que sopros humanos” (cf. At 5,29).

Uma terceira reflexão tem a ver com a resistência em “em passar o manto”. Admiramos profundamente a caminhada congregacional em todas as suas fases históricas mesmo conhecendo muitos impasses e limitações do percurso. Por que então nós ficamos tão inseguras/os diante das mudanças, das novas opções ou jeitos novos que a realidade atual e nossas opções congregacionais nos pede na vivência do carisma? Isso em todas as instâncias, mesmo em trabalhos que assumimos quer a nível pastoral como social; em nossas irmandades e famílias. Nos custa muito acreditar, apostar, estar inteiras/os no caminho desafiador mas bonito, que está acontecendo ou que pode acontecer se abrirmos mão de certos mantos, se caminharmos firmes mais leves sem grandes pretensões.

Abrir o coração às novidades do Espírito é também mansamente diminuir nossos holofotes, para outros (que podem ser também projetos, ideias...) cresçam! Não é sobre deixar que façam, entregar... se afastar..., mas sobre convictamente, marcar presença, plantar, regar, sem necessariamente ser protagonista mas sempre francisclarianamente ser irmã/irmão.

A humildade de irmã Clemência, que mesmo depois de 14 anos ter assumido com generosidade a orientação da Companhia, entregou sem hesitar e seguiu seu caminho só opinando quando solicitada é uma forte interpelação neste sentido. Que ela, junto a Trindade Santa, interceda para que Faça-se em Nós a novidade permanente da Divina Ruah.


[i] Ede M. Valandro, 1980. Em resposta ao Clamor do povo, p. 103.

[ii] Lúcia Neotti, 1976. Congregação das Irmãs Catequistas Franciscanas, p. 59.

Informações adicionais

  • Fonte da Notícia: Irmã Carmelita Zanella, CICAF