Francisco, Clara, emprestem-nos seu amoroso coração.
Esta é uma promessa amiga/irmã de Francisco a Clara e suas Irmãs. Eles respiravam o mesmo ar, não só porque viviam na mesma cidade, mas porque os unia o mesmo sopro do Espírito que renova todas as coisas. Eles viveram uma amizade marcada pela sintonia e suporte espiritual mútuo, a mesma sincera e profunda busca de Deus, o mesmo ardente amor ao Crucificado e aos crucificados, o mesmo caminho da pobreza de Jesus Cristo e de sua Mãe Santíssima. Para ambos a amizade é força e impulso na busca do retorno ao Evangelho de que a Igreja necessitava. Uma amizade marcada pelo respeito, liberdade, oração e fidelidade na vivência do Evangelho, no seguimento de Jesus Cristo.
Mas não foi só a amizade mútua e sólida que ambos vivenciaram. Conhecemos pelas Fontes que Francisco nutria uma amizade profunda, fiel, delicada e santa com Jacoba de Settesogli que por seu significado está registrada em várias Fontes. Trazemos aqui o episódio talvez mais marcante: “Jacoba de Settesogli, notável por sua nobreza e igual santidade na cidade de Roma, merecera o privilégio de uma afeição particular da parte do santo. Não preciso lembrar aqui, para honrá-la, suas origens ilustres, a dignidade da família, o esplendor das riquezas, nem a perfeição de suas virtudes e sua vida exemplar na longa viuvez.
Quando o santo jazia por aquela doença que, no fim de todo sofrimento, consumou a carreira feliz com um final bem-aventurado, poucos dias antes da morte, quis enviar uma mensagem a Roma à Senhora Jacoba, comunicando-lhe que se apressasse caso desejasse ver retornar a sua pátria aquele que ela tanto amara em sua condição de exilado. Escreveu-se uma carta, procurou-se um mensageiro capaz de ir a todo galope a Roma, e ele se preparou para a viagem.
Diante da porta, no mesmo instante, ouve-se o barulho de cavalos, o rumor de soldados e o ruído de uma comitiva. Um dos companheiros, justamente o que preparava a partida do mensageiro, foi à porta e encontrou aquela que procurava como ausente. Todo admirado, correu rapidíssimo para o santo e, sem se conter de tanta alegria, disse: “Eu te trago boas novas, pai!”
Antes de ouvir, o santo respondeu imediatamente: “Bendito seja Deus que nos enviou nosso irmão, Senhora Jacoba! Abri as portas e introduzi-a, pois o decreto sobre as mulheres não deve ser observado por Frei Jacoba”. Houve muita exultação entre os nobres hóspedes, e uma profusão de lágrimas por entre as ternuras do espírito.
E para que nada faltasse ao milagre, descobriu-se que a santa mulher trouxera tudo que havia na carta, já antes escrita, para as exéquias do pai: um pano cinza para envolver o pequeno corpo do que estava partindo, muitas velas, um sudário para o rosto, um travesseiro para a cabeça, e mesmo alguns daqueles bolos que o santo apreciava. Tudo o que o espírito dele tinha desejado fora sugerido por Deus”. (Tratado dos Milagres 37,1-38,4).
(Foi ela quem recebeu no regaço o corpo do santo assim que faleceu. Podemos enriquecer a leitura: Tratado dos Milagres 39; 1EP 11; 2EP 112; CA 8; AtF 18; 4CSE)
Clara, por sua vez preza a amizade como vínculo originário do amor da Trindade. Ela não necessita da presença física da pessoa para se sentir em comunhão com ela, para compartilhar alegrias e preocupações. É o caso da amiga Inês de Praga, com que nunca se encontrou, mas cultiva uma correspondência muito afetuosa e edificante. Trata-a de “irmã caríssima”, “irmã querida”, “outra metade da minha alma”, “sacrário do meu cordial amor”, “caríssima mãe e filha” “nos alegramos com os bens que o Senhor realiza em você”. Não tem medo de usar uma linguagem extremamente carinhosa com sua amiga: “Ó mãe e filha, esposa do Rei de todos os séculos, embora não tenha escrito mais vezes, como a minha alma e a sua igualmente desejam e de certa forma até necessitariam, não estranhe nem pense que o fogo do amor está ardendo menos no coração de sua mãe. A dificuldade é esta: faltam portadores e o perigo nas estradas é conhecido. Mas agora, podendo escrever à minha querida, alegro-me e exulto com você, ó esposa de Cristo, na alegria do espírito. Pois, como Inês, a outra virgem santa, você desposou de modo maravilhoso o Cordeiro imaculado que tira o pecado do mundo, deixando todas as vaidades desta terra.
Que mais? No amor por você, cale-se a língua de carne, fale a língua do espírito. Filha bendita, como a língua do corpo não pode expressar melhor o afeto que tenho por você, peço que aceite com bondade e devoção isto que eu escrevi pela metade, olhando ao menos o carinho materno que me faz arder de caridade todos os dias por você e suas filhas. (4In 4-8.35-38).
Francisco, Clara, emprestem-nos seu amoroso coração. Que saibamos cultivar entre nós amizades verdadeiras, transparentes, que sejam fortaleza na caminhada. Como diz a canção, que sejam “um santo remédio, um abrigo seguro”. Que sejam caminhos de sabedoria, espelho, impulso e sustento na fidelidade ao Evangelho. Que vivamos a amizade como a viveu Jesus, com Lázaro, Marta, Maria, o Discípulo amado. Que nossa amizade seja companhia na jornada desta vida, na jornada missionária.

