“Ninguém pode dizer Jesus é Senhor a não ser pelo Espírito Santo”
Respirando ainda o sopro de Pentecostes, detenhamo-nos ante o oceano do Espírito e deixemos que suas ondas inundem nosso ser. Que nosso coração se deixe encher; que suas águas preencham cada vazio de nossa vida; que sua força dinamize todas nossas energias, transforme nossas fraquezas em degraus para subir à compreensão de seus desígnios e mobilize nossas possibilidades de entrega no serviço para “apressar a hora da urgência que não permite esperar”. O mesmo Espírito que baniu o medo, que permitiu falar a partos, medos, elamitas ... e abrir a compreensão para que cada um ouvisse falar em sua própria língua, está conosco, abrindo mentes e caminhos, fortalecendo pés cansados e joelhos vacilantes.
Este fogo que fez arder os corações, que desatou línguas e quebrou grilhões, continua aceso, continua aquecendo ânimos, queimando obstáculos, iluminando trevas.
Ardeu em Francisco quando ele ouviu a queixa-mandado do Senhor: “Francisco, não vês que a minha casa está destruída? Vai, pois, e restaura-a para mim” (LTC 13,7). Foi o fogo propulsor de toda uma caminhada e do nome que já define o lugar social e o espírito da missão, define a identidade da nova família que vai surgindo: Irmãos Menores e Irmãs Pobres.
Francisco inicia a obra de restauração da Igreja a partir da convivência com as “ruínas” da igreja viva – os leprosos, os pobres (e os que se fizeram pobres), os destinatários primeiros do Reino, conforme o proclama Jesus: “Felizes vocês, os pobres porque o Reino de Deus é de vocês” (Lc 6,20). Vive entre eles, lava suas feridas, serve-lhes o alimento material que consegue e anuncia-lhes, através do serviço misericordioso, do respeito e cuidado amoroso, que Deus os ama com predileção.
O Espírito Santo é o guia desta nova família que se vai congregando por sua inspiração, este mesmo Espírito, chamado por Francisco Ministro Geral da Ordem:
“Queria, justamente, que a Ordem fosse a mesma tanto para os pobres e os iletrados como para os ricos e os sábios. Dizia: “Diante de Deus não há acepção de pessoas, e o Ministro Geral da religião, que é o Espírito Santo, pousa do mesmo jeito sobre o pobre e o simples” (2Cel 193,3-4).
Aos seus primeiros companheiros animava: “Não tenhais medo por parecerdes poucos e ignorantes, mas com firmeza e simplicidade anunciai a penitência, confiando no Senhor, que venceu o mundo, porque por seu Espírito falará por meio de vós e em vós para exortar a todos que se convertam a Ele e observem seus mandamentos” (LTC 36,3).
Mas os que entrarem na Ordem nesse tempo serão trazidos unicamente pela ação do Espírito Santo, sem mácula da carne e do sangue, e serão verdadeiramente abençoados pelo Senhor (2Cel 157,5).
A Clara o Espírito moveu à inquietude, à busca do diferente, do absolutamente radical abandono do modo de vida e convívio social: nobre, se fez “sem nada”, de viver numa casa cheia de servidores passou a ser serva de suas irmãs, executando as tarefas mais difíceis. Cheia deste Espírito as guiava no caminho do seguimento de Jesus pobre e servidor:
“E as que não sabem letras não procurem aprendê-las; mas lembrem que, acima de tudo, devem desejar ter o Espírito do Senhor e sua santa operação, orar sempre a ele com coração puro e ter humildade, paciência na tribulação e na doença, e amar os que nos perseguem, repreendem e acusam...” (RSC 10, 8-11).
Escrevendo a sua amiga Inês de Praga confirma a verdade proclamada pelo apóstolo Paulo: “Ninguém pode dizer Jesus é Senhor a não ser pelo Espírito Santo” (1Cor 12,3). Na segunda carta, se mostra agradecida pelos dons e virtudes com que o Espírito Santo a enriqueceu:
“Agradeço ao Doador da graça, do qual cremos que procedem toda dádiva boa e todo dom perfeito, pois adornou-a com tantos títulos de virtude e a fez brilhar em sinais de tanta perfeição, para que, feita imitadora atenta do Pai perfeito, mereça ser tão perfeita que seus olhos não vejam em você nada de imperfeito” (2In 3-4).
Peçamos ao Espírito que animou e sustentou Clara e Francisco, que suscitou tantos Irmãos e Irmãs para esta Família, que nos ajude a seguir a missão de reconstruir a Igreja e a sociedade fraterna, justa, solidária a partir daqueles e daquelas que ainda não são contados, menos ainda valorizados; a partir das “ruínas” feitas assim pela fome, desrespeito a seus direitos, marginalização. Que Ele nos fortaleça na caminhada em busca da irmandade entre todas as criaturas, em busca do resgate da vida no planeta, nossa casa comum. Que o Espírito nos possua inteiramente e nos conserve sempre nos seu santo modo de agir.

