Sua luz, porém, atravessa os séculos e chega até nós com fulgor sempre novo.
Luz é feita para brilhar, mas só brilha se for acesa. Clareia, revela, desvela. Jesus se reconhece e se apresenta como luz do mundo e declara: “quem me segue não anda nas trevas”. É muito difícil que alguém não goste da luz a não ser que esteja doente dos olhos, ou que precise do muro da escuridão para esconder-se, da verdade ou do perigo.
No início deste mês, celebramos a festa da Apresentação da Luz, do Resplendor da salvação. No mesmo dia, também celebramos o dia da Vida Consagrada. Lembramos aqueles e aquelas que pautam sua vida pela vida de Jesus, que procuram andar nas mesmas sendas, percorrer os mesmos caminhos, os mesmos povoados e vilas.
Francisco e Clara são faróis que imprimiram brilho novo à Igreja, ao mundo, à Vida Consagrada de seu tempo, de seu mundo. Sua luz, porém, atravessa os séculos e chega até nós com fulgor sempre novo. Uma luz que acende ânimos, mostra caminhos novos entre cristãos e não cristãos.
Francisco despontou primeiro impulsionado pela inquietude que lhe sobreveio por circunstâncias incomuns (guerra, enfermidade) e que foi discernindo na oração, na silenciosa contemplação. Sempre de novo, recorremos a Tomás de Celano para dar-nos um testemunho:
“De fato, quando ele ainda vivia no pecado com paixão juvenil, arrastado pelas paixões da idade e incapaz de controlar- se, poderia sucumbir ao veneno da antiga serpente. Mas a vingança, ou melhor, a misericórdia divina, subitamente desperta sua consciência através de uma angústia na alma e de uma enfermidade no corpo, conforme as palavras do profeta: “Hei de barrar teu caminho com espinhos e cercá-lo de muralhas” (cf. Os2,6).
Prostrado por longa enfermidade, (…) começou a refletir consigo mesmo de maneira diferente. Já um pouco melhor, e apoiado em um bastão, começou a andar pela casa para recuperar as forças. Certo dia, saiu à rua e começou a observar com curiosidade a região que o cercava. Mas nem a beleza dos campos, nem o encanto dos vinhedos, nem coisa alguma agradável de se ver conseguia satisfazê-lo. Ficou surpreso com sua mudança repentina e começou a julgar estultíssimos os que amavam essas coisas (1Cel 3,1-5).
Certo dia, tendo invocado mais plenamente a misericórdia divina, o Senhor lhe mostrou o que tinha que fazer” (1Cel 7,1).
Clara, foi iluminada pelo Senhor através do exemplo de Francisco. Seu desejo, impossível para uma mulher da época, era também pregar o Evangelho pelo testemunho e pela palavra. Queria também viver pobre, sem nada como seu inspirador e, para isso, encontrou um caminho alternativo: a pobreza absoluta compartilhada na irmandade; a pobreza de Jesus Cristo e de sua Santíssima Mãe. A pobreza é, pois, seu brilho e coroa. Esta pobreza que vive e recomenda como caminho de perfeição evangélica:
“Portanto irmã caríssima, ou antes, veneranda senhora, sois esposa, mãe e irmã do meu Senhor Jesus Cristo e fostes brilhantemente assinalada com o estandarte da virgindade inviolável e da santíssima pobreza. Fortalecei-vos, pois, no santo serviço pelo qual vos haveis decidido, em ardente desejo de imitar a Cristo pobre e crucificado. Ele sofreu por nós o suplício da Cruz, para nos libertar do poder do príncipe das trevas que, desde o pecado dos nossos primeiros pais, nos mantinha prisioneiros. Assim nos reconciliou com Deus nosso Pai.
Ó bem-aventurada pobreza, penhor de eternas riquezas para os que a amam e abraçam. Ó Santa pobreza, pela qual Deus promete o Reino dos céus aos que a possuem e desejam, e certamente lhes concede a glória eterna e a vida bem-aventurada. Ó sagrada pobreza, que o Senhor Jesus Cristo se dignou abraçar, preferindo-a a todas as riquezas. Ele que governa o céu e a terra e que tudo criou com o poder da sua Palavra” (Primeira Carta de Clara Inês de Praga, 12-17).
A ordem de fazer brilhar nossa luz é para qualquer seguidor e seguidora de Jesus Cristo. É para cada uma e cada um de nós. Que o exemplo de Clara e Francisco nos anime e fortaleça. Que descubramos a maneira de fazer brilhar a luz que recebemos no batismo, que reafirmamos em nossa consagração religiosa. Que descubramos nosso caminho e o trilhemos confiantes e alegres, na fidelidade ao compromisso que assumimos. Que Francisco e Clara caminhem conosco! Façamos brilhar nossa luz! O mundo precisa dela!

